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Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

03.05.21

Alma lavada

V.

A água que cai do chuveiro mistura-se com as suas lágrimas, o calor disfarça os olhos vermelhos e o barulho da água sufoca o seu soluçar. Nestes breves momentos, ela permite-se sentir toda a tristeza que assola o seu coração, toda a dor que a tolhe. Estes são os seus minutos consigo, quando ela despe a armadura e é ela própria, com todo o sofrimento que a afunda até cair de joelhos na laje fria. Sussurra uma prece, pede aos anjos que a ajudem a levantar novamente, que a força não a abandone, porque a luta não termina aqui e a vida espera-a impaciente do lado de lá da porta.
Lava o cabelo duas vezes, porque perdida nos seus pensamentos esqueceu-se se o tinha lavado ou não, esfrega o corpo com intensidade, numa vã tentativa de lavar o sofrimento, fecha os olhos contra o jorrar da água e as imagens passam sem cessar na sua mente. Todos os momentos de carinho, amor e desejo que se perderam, contraste flagrante e sórdido com a indiferença de que é alvo agora. As dúvidas rodopiam na sua cabeça, as perguntas que não fez presas na garganta junto com o oxigénio que sustem nos pulmões. Não há água que lave uma alma perdida, todos os dias ela espera sair do chuveiro com a alma lavada, mas sai apenas lavada em lágrimas...

30.04.21

A Verdade...

V.

As mentiras que contamos a nós próprios! As ilusões que alimentamos na nossa cabeça, porque a realidade, às vezes, é dura demais! Sim, não vale a pena viver uma mentira, fugir da realidade, mas todos nos protegemos como podemos, todos fazemos o melhor que sabemos. Há alturas na vida, que não temos forças para encarar a verdade, mesmo quando estamos fartos de a ver.

Viramos as costas, fingimos que não vemos, não ouvimos, não percebemos o que é tão dolorosamente óbvio. Mantemos a mentira, a ilusão por mais uns dias, meses, anos... sempre à procura da força e coragem para a enfrentar. Em busca da capacidade para dizer "Basta, eu sei, eu já percebi, não vale a pena mentir mais".

Por vezes, a ilusão é tão mais doce que a solidão e o sofrimento que acompanham a verdade. Mas as lágrimas estão lá na mesma... só não nos permitimos chorar para não quebrar a ilusão. A dor permanece dentro de nós à espreita, como uma ameaça subtil, pronta para nos atacar quando menos esperamos.

Dizem-nos que não adianta, que a verdade sempre nos irá apanhar, que estamos apenas a protelar o inevitável e, racionalmente, sabemos isso. "A verdade te libertará", não é esse o lugar comum que todos repetem. Pois... mas qual é a tua verdade? Qual será a libertação que vem do sofrimento de se perder algo ou alguém que nos é tão querido? Lugares comuns não se aplicam quando se trata de assuntos do coração, não fossemos nós tão magnifica e ricamente diferentes.

Não, hoje a verdade não me libertará, porque eu ainda não tenho forças para a enfrentar. Talvez um dia a consiga encarar e dizer "Estou pronta para ti" ou talvez alguém a imponha sem eu ter uma escolha ou opinião. A vida tem o seu tempo, o nosso caminho as suas paragens e cruzamentos, mas o destino está lá à nossa espera, paciente e magnânimo, para os receber os seus filhos... com ou sem dor.

02.02.21

Amar e perder...

V.

Esta semana perguntaram-me se era melhor sofrer por se perder alguém ou nunca ter tido a pessoa? Porque se nunca tivermos a pessoa, não temos que passar pelo sofrimento de a perder. Compreendo esse raciocínio, mas discordo. Se nos causa dor quando perdemos, é porque nos trouxe grande alegria quando esteve connosco. Se tivesse sido indiferente, a sua perda não causaria qualquer sentimento. Todas as pessoas que passam pela nossa vida acrescentam algo, quanto mais não seja boas recordações. Regra geral, trazem até muito mais do que isso, trazem lições, sobre nós próprios ou sobre o outro, conhecimento, maturidade, compreensão.

Por muito que não gostemos de admitir, com o sofrimento vem crescimento. Podemos optar por aprender com a dor e crescer, ou continuar um loop infinito de vitimização e não retirar nada da experiência ou acontecimento. É o desconforto causado pelo sofrimento que nos obriga a sair da nossa zona de conforto, a olhar para dentro, fazer uma retrospetiva do que aconteceu e aprender com isso.

Perdemos às vezes pessoas por estupidez, insegurança, imaturidade e nesses casos, crescemos com a aprendizagem e não faremos o mesmo da próxima vez. Outras vezes perdemos a pessoa porque ela simplesmente já não está interessada, a pessoa já desempenhou o papel que tinha a desempenhar na nossa vida. A lição a retirar é que não foi por não sermos suficientes, não nos deixar levar pela ideia de que foi inteiramente culpa nossa e aprendermos que temos que nos amar, mesmo que aquela pessoa já não ame. Seja qual for o motivo, é melhor viver um grande amor e perder, do que nunca amar para não sofrer.

Dirão os mais incautos que é fácil falar, que há pessoas que nunca recuperam completamente, que não é assim tão simples. Concordo, não é um processo fácil, não é, de todo, simples, a recuperação é dolorosa e lenta e há amores que nunca se esquecem, o que, em geral, significa que valeram a pena. Tomara a mim que ninguém sofresse e que fossemos todos felizes para sempre. Mas na vida, a felicidade e a dor caminham de mãos dadas, uma não existe sem a outra, são extremidades que se tocam mais vezes do que gostaríamos. Com o tempo e a experiência, aprendemos a equilibrar, a gerir e a viver com mais tranquilidade, aprendemos a aceitar a dor como a velha companheira que nunca nos deixa verdadeiramente e a compreender que, a maior parte das vezes, é nossa opção sermos assoberbados por ela ou aprender com ela.

O meu único conselho é... amem, não deixem de amar por medo de sofrer. Vale a pena amar, vale tanto a pena, seria uma perda deixar de conhecer esse sentimento maravilhoso apenas por medo.

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