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Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

11.06.21

Como "Daisy" para "Gatsby"

V.

Ela adorava ler, poderia passar o dia todo com o nariz enfiado num livro se este a interessasse. Um dos seus livros preferidos era "O Great Gatsby". Tal como Gatsby, ela queria acreditar no amor, na sua força avassaladora e como tudo supera. Era capaz de grandes sacrifícios pelo seu amado e de fazer o que fosse preciso para o conquistar. E ele era a sua "Daisy", a sua luz verde na doca, a esperança de que todo o sofrimento tinha afinal valido a pena para agora ter a felicidade que tanto ansiava. Mas, tal como Daisy, no fim, ele iria sempre escolher a segurança, o status quo, a continuidade. Escudado na velha máxima de que "não queria ver ninguém sofrer", esquecido de que ela, o seu "Gatsby", sofreria sozinha, ela e só ela sairia magoada, ainda que a dor dela fosse de somenos importância no enredo da vida dele.

Curioso como o Universo manda sinais... sempre tinha sentido uma grande afinidade com a personagem de Gatsby, mal podia adivinhar que o destino de ambos seria semelhante... Restava-lhe esperar que não fosse completamente igual.

15.02.21

Proximidade...

V.

Senti os raios de sol e pensei: temos o mesmo céu, somos aquecidos pelo mesmo calor, vemos as mesmas nuvens e sentimos a mesma brisa. Tive este sentimento de proximidade que tanta falta me tem feito. Proximidade... algo que dávamos por garantido, se não com toda gente, pelo menos com algumas pessoas. 

No próximo mês faz um ano que perdi a proximidade e com ela foi-se grande parte do carinho, conforto, gargalhadas e claro, convívios. Dizem-nos que estamos perto do fim, ou que está quase. Este quase tarda a chegar, cresce o desespero de dia para dia e fica a pergunta "E depois?". Sim... e depois? será tudo igual? voltaremos a carregar no botão de "play" da vida e retornará tudo ao que era? Seremos nós as mesmas pessoas que éramos há um ano atrás? 

Com a falta de proximidade muita coisa mudou, relações se transformaram, pessoas mudaram, negócios fecharam, corações se partiram, outros se descobriram. Aqueles que perderam tanto não poderão ser mais os mesmos, terão que encontrar novas motivações e alegrias. Eu sei que eu não sou mais a mesma, nestes meses de clausura encontrei partes de mim que desconhecia, alguns sentimentos mudaram, outros ficaram mais fortes resistindo à passagem do tempo; sou, talvez até, mais autêntica, mais eu. Não perdi a esperança, a fé e a vontade de viver, mas também novos medos se alevantaram, novas dúvidas se instalaram e fantasmas antigos voltaram. 

Olharemos uns para os outros com mais compreensão e compaixão? ou seremos mais desconfiados? Será que haverá uma proximidade maior? Cumplicidade? Ou o afastamento, ainda que não físico, permanecerá? Eu quero crer que algo de positivo poderá sair depois de todo o sofrimento, que o Homem aprenderá a dar mais valor ao que realmente interessa, que estamos todos mais cientes da nossa própria mortalidade e, como tal, daremos mais importância à vida e aos seus pequenos prazeres. Ah a minha eterna esperança na Humanidade, tão boa que ela é e tantas vezes me desiludo por causa dela. Mas oh quando ela não desilude, quão magnífico é ver a Humanidade no seu melhor.

Fica então aqui a minha esperança que depois de tudo isto, o mundo seja melhor... com mais compreensão, cumplicidade e compaixão. Que honremos os nossos mortos construindo uma sociedade melhor em seu nome; que o que foi destruído dê lugar ao renascimento; que confortemos em conjunto os que sofrem até sararem; que possamos dar as mãos uns aos outros; amparar a vida com amizade e carinho e crescer enquanto humanidade. Que um dia quando nos perguntarem "Então e depois?", que a nossa resposta possa ser "Bem... depois houve proximidade".

18.01.21

Esperança II

V.

É inevitável este sentimento de estarmos presos sem termos cometido um crime. Andamos cansados, a vida resume-se às obrigações quotidianas, trabalho em casa e para a casa e regras que temos que cumprir para viver ou sobreviver estes tempos tão confusos. São tempos extraordinários, mas que, de tão prolongados no tempo, se tornaram apenas ordinários.

O ser humano é um ser social, vive em comunidade e precisa de alimentar a alma. Para uns é a ida ao teatro, ao ballet, a um concerto, para outros a visita a um museu, o cinema, uma viagem. Pode ser os copos com os amigos, dançar, gargalhadas, pode ser tudo isto ou algo completamente diferente, cada um tem o seu reportório de cor na vida. O que não fomos feitos para viver, é o isolamento, a permanência de dias que se repetem iguais uns aos outros sem o colorido das atividades que nos fazem sorrir, sonhar, criar expectativas.

Somos prisioneiros sem pecado e sem perdão, somos chamados para esta guerra de inimigos invisíveis e a nossa arma é não fazer nada, ficar em casa, usar máscaras e lavar as mãos. Para não morrermos e não matarmos o próximo, temos que nos isolar. Não somos a frente de batalha, essa desenrola-se no hospital com soldados à beira da rutura, da exaustão, agarrados aos últimos vestígios da sua sanidade mental, com a esperança que uma "bomba atómica" chamada vacina aniquile este invasor. Nós somos a retaguarda unida na proteção dos velhos, dos doentes e fragilizados, na nossa proteção e para não tornar mais difícil a vida dos nossos soldados.

Há dias em que não parece haver solução para esta tristeza que nos assola. Todos temos os nossos momentos de fraqueza, de desespero, de impaciência. Pusemos um "pause" na vida, nos sonhos, aspirações e projetos e queremos tanto, mas tanto, carregar no "play" novamente. Temos que tentar encontrar beleza na vida como ela se apresenta agora. Podemos redescobrir as capacidades do nosso corpo fazendo desporto, escrever é a catarse de alguns, jardinar para ver a vida desabrochar talvez, ler para viajar por outros países ou mundos, tocar um instrumento ou cantar para "espantar o mal"... todos temos que encontrar um qualquer escape à realidade mais cinzenta que temos.

Acima de tudo, temos que escolher ter Esperança. Escolham a Esperança, porque a alternativa não vos trará nenhuma felicidade. Podem chamar-me louca, ingénua, os mais contidos chamar-me-ão otimista. Chamem-me o que quiserem, eu vou sempre escolher a Esperança, vou aguardar pacientemente pelo dia em que poderei carregar no "play" novamente, receber a minha liberdade condicional e abraçar as pessoas que gosto. Vou sempre acreditar que esta terceira guerra mundial tem fim à vista e que a Humanidade reinará novamente livre da escravatura do vírus e que os nossos soldados poderão pousar as suas armas ou ventiladores e descansar. Sim, no que toca à Humanidade, serei sempre uma otimista, escolherei sempre acreditar, porque afinal, o "sonho comanda a vida", mas é a Esperança que a sustém.

21.12.20

O segredo

V.

Um dia que amanheceu como qualquer outro, um dia de sol e promessas de sorrisos. Amizades, aventuras, brincadeiras e gargalhadas até ser vencida pelo cansaço. Adormece pura e casta, repleta de esperança e inocência. Tudo muda tão rápido, sem o seu controlo, uns minutos de sono e o pesadelo começa. O desconforto, um estremecimento, uma dor, a confusão.

Os pesadelos são assim, acontecem quando menos se espera. É invadida pelo horror, instala-se o medo, um pânico que a impede de respirar. O cheiro que lhe revolta o estômago. Nunca esquecerá o fedor que a faz sentir imunda, sente-se afogar na sujidade, só a água a pode fazer respirar, só um banho lhe devolverá a dignidade que, em certa medida, para sempre se perdeu.

Acorda, o pesadelo acabou, mas a inocência foi-se, a pureza arruinada. Não mais será a mesma... não tem culpa, mas parte de si, vai recriminar-se toda a vida. Afinal, é o seu pesadelo, a mais ninguém pertence senão a ela. A inocência foi roubada, não a deu, mas é um segredo que guarda dentro de si, porque haverão sempre os que duvidarão. É um segredo que a mina e apodrece, como o fedor que nunca esquecerá. Um segredo que, como uma aranha, constrói uma teia à sua volta, a esmaga e oprime lentamente, mas a mantém segura do mundo exterior... e este segredo, tal como o pesadelo, só a ela pertence.

17.11.20

Esperança

V.

A manhã está fria e bonita. Sempre adorei a luz da manhã, sempre me deu Esperança. Respiro fundo, sinto com gratidão o ar frio entrar nos pulmões. Ar este que falta a tantos de variadíssimas formas nos dias que correm.

Uns estão doentes, respirando de forma assistida por máquinas; outros sem emprego ou rendimento e até lhes falta o ar; alguns têm medo, consumidos pela incerteza e pavor, custa-lhes respirar.

Fiz uma prece, uma de muitas nos últimos tempos, e pedi aos pássaros que levassem as minhas palavras ao céu. Que no bico levassem a minha prece e na asa transportassem a Esperança. Que a espalhassem pelo caminho, para tocar algumas almas. Pedi ao vento que levasse este ar bom e fresco aos que sofrem, aos que lutam, aos que pensam desistir. E pedi ao sol que levasse esta linda luz da manhã para ti. Para iluminar o teu dia, o teu coração, a tua vida e ajudar-te a combater essa escuridão com que lutas.

Eu sei... eu sei que dias há em que a escuridão vence. Tudo é negro, tudo é triste e a Esperança não é mais do que uma palavra no dicionário, uma quimera de outrora. Mas hoje, talvez a luz chegue até ti, trazida pelo sol ou na asa de um pássaro. Quando a brisa te tocar, recorda-te que leva o meu pedido. Enche os pulmões, respira fundo, fecha os olhos e sorri... porque hoje estás aqui, consegues respirar, estás vivo, não te falta o ar e há Esperança.

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