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Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

11.06.21

Como "Daisy" para "Gatsby"

V.

Ela adorava ler, poderia passar o dia todo com o nariz enfiado num livro se este a interessasse. Um dos seus livros preferidos era "O Great Gatsby". Tal como Gatsby, ela queria acreditar no amor, na sua força avassaladora e como tudo supera. Era capaz de grandes sacrifícios pelo seu amado e de fazer o que fosse preciso para o conquistar. E ele era a sua "Daisy", a sua luz verde na doca, a esperança de que todo o sofrimento tinha afinal valido a pena para agora ter a felicidade que tanto ansiava. Mas, tal como Daisy, no fim, ele iria sempre escolher a segurança, o status quo, a continuidade. Escudado na velha máxima de que "não queria ver ninguém sofrer", esquecido de que ela, o seu "Gatsby", sofreria sozinha, ela e só ela sairia magoada, ainda que a dor dela fosse de somenos importância no enredo da vida dele.

Curioso como o Universo manda sinais... sempre tinha sentido uma grande afinidade com a personagem de Gatsby, mal podia adivinhar que o destino de ambos seria semelhante... Restava-lhe esperar que não fosse completamente igual.

27.05.21

Não me sobram sonhos...

V.

Não me sobram sonhos, apenas pedidos. Que o sofrimento não seja mais do que eu consiga suportar, que a saúde não me falte para criar a minha cria, que eu a acompanhe durante muitos e longos anos e que quando eu partir deste mundo ela continue a crescer e a ser forte, saudável e feliz. São pedidos, preces ou orações, mas não são sonhos. Esses morreram, partiram para não mais voltar sendo substituídos pela flagrante realidade que as agruras da vida trouxeram.

Sou uma alma sonhadora, como me chamaram um dia... mas como vive uma alma sonhadora a quem não sobram sonhos? Como se continua a caminhada da vida sem o amparo e a companhia da esperança? Como se muda a natureza de um coração? Preciso que este fique empedernido para não mais sentir, porque com o sentimento, inevitavelmente, tem vindo o sofrimento.

Sinto apenas a ausência, o vazio. Onde sobejavam desejos, segredos e quimeras, reside apenas o silêncio. Um silêncio ensurdecedor que preenche a minha mente e apaga as palavras. Não nasce mais em mim o doce fruto dos vocábulos. Numa antítese que só aos humanos pertence, faltam-me as palavras quando mais preciso falar. Quedo-me muda e fecho-me ao mundo porque só o amor me fazia bulir. Foram-se os sonhos, foram-se com o meu amor...

03.05.21

Alma lavada

V.

A água que cai do chuveiro mistura-se com as suas lágrimas, o calor disfarça os olhos vermelhos e o barulho da água sufoca o seu soluçar. Nestes breves momentos, ela permite-se sentir toda a tristeza que assola o seu coração, toda a dor que a tolhe. Estes são os seus minutos consigo, quando ela despe a armadura e é ela própria, com todo o sofrimento que a afunda até cair de joelhos na laje fria. Sussurra uma prece, pede aos anjos que a ajudem a levantar novamente, que a força não a abandone, porque a luta não termina aqui e a vida espera-a impaciente do lado de lá da porta.
Lava o cabelo duas vezes, porque perdida nos seus pensamentos esqueceu-se se o tinha lavado ou não, esfrega o corpo com intensidade, numa vã tentativa de lavar o sofrimento, fecha os olhos contra o jorrar da água e as imagens passam sem cessar na sua mente. Todos os momentos de carinho, amor e desejo que se perderam, contraste flagrante e sórdido com a indiferença de que é alvo agora. As dúvidas rodopiam na sua cabeça, as perguntas que não fez presas na garganta junto com o oxigénio que sustem nos pulmões. Não há água que lave uma alma perdida, todos os dias ela espera sair do chuveiro com a alma lavada, mas sai apenas lavada em lágrimas...

30.03.21

Nunca te arrependas

V.

Eu cometi um erro... aliás cometi vários, mas o maior de todos foi achar que um dia ia deixar de te amar. Acreditar que este sentimento que crescia e pulsava dentro de mim, um dia iria embora como veio. Pensar que eu seria capaz de abrir mão da felicidade que me trouxeste, da alegria com que salpicaste a minha vida e os meus dias. 

Não me arrependo, como poderia, se és tudo que sonhei e mais? Todos os momentos que passámos juntos ficaram gravados em mim, cada toque, cada beijo, cada palavra, como fonte de água fresca que sacia a minha sede de amor. Procuro respostas nas estrelas, converso com a lua e faço pedidos ao mar. Peço ao vento que te leve os meus beijos e ao sol que nos ilumine. Quando me deito imagino o teu corpo encostado ao meu, o teu calor e o teu carinho. Fecho os olhos e imagino que estou a encostar o rosto na curva do teu pescoço e te respiro, continuas a ser o meu oxigénio favorito. Tenho conversas longas contigo em que te digo tudo o que fica por dizer, tudo que não tenho coragem de verbalizar e sonho contigo para apaziguar as saudades que me engolem.

Quis tanto acreditar, tanto, tanto que acreditei. Quis crer que as histórias de encantar eram possíveis e foram. Quis que fosses o meu príncipe e és. Quis viver aquele amor único e belo que todos procuramos e vivi.

Mas como se volta atrás? Como se recua de uma vida em que o nosso coração está pleno, completo, preso na mais livre loucura, para o antes? Para os dias em que havia um vazio, uma estagnação e dureza de sentimentos que cobriam a verdade que ia lá dentro? Como se passa de ter tudo, para perder o tudo que se encontrou? 

Sabes, eu não te esperava. Não esperava que o teu sorriso me desarmasse, que o teu carinho colocasse por terra anos e anos de defesas bem montadas. Não esperava que o teu amor curasse a dor que trazia cá dentro, que o teu corpo me fizesse conhecer o meu como nunca conheci. E acima de tudo não esperava que os teus lábios soubessem ao meu destino e os teus braços sentissem como o meu lar.

Se tudo isto faz sentido? Não, provavelmente, não. Se é aceitável? Possível? Desejável? Também não. Se é o que me deu a mim sentido, se é o que eu desejo, aspiro e almejo todos os dias? Então aí a resposta é, definitivamente, sim...

Seja qual for o nosso destino, não me arrependo. Sem ti nunca saberia que algo assim é possível. Que podemos nos sentir tão completos com alguém sem termos que deixar de ser nós próprios. Que um amor sem tabus, sem barreiras é possível e que o sempre e só, só a nós pertence. Deixaste de acreditar ou talvez eu te tenha desiludido... seja qual for a resposta, a única coisa que espero é que nunca te arrependas.

26.03.21

Destino...

V.

Há dias que são anos e anos que são dias... Quando na escuridão, os dias arrastam-se, demoram-se, repetem-se iguais uns aos outros e nada nos faz sorrir. Cabe num dia uma eternidade até chegar o alívio do sono... para os que conseguem dormir. Quando estamos felizes, o tempo urge e corre como um rio no seu leito, os dias são meros piscares de olhos. Não podemos parar o tempo, como não podemos parar o rio. Só nos é permitido conhecer aquela sensação de que, naquele preciso momento, tudo está bem, tudo é perfeito e guardar essa recordação. É tudo tão frágil, tão efémero que quando esses momentos surgem, nos queremos agarrar a eles. Passamos depois tanto tempo à espera de os repetir, na ilusão talvez, de que podemos até voltar atrás no tempo.

Temos a nossa vida e felicidade suspensas nos fios delicados do destino, da vontade alheia, do acaso, das nossas próprias fraquezas. Queremos acreditar que controlamos esses fios, que não somos nós as "marionetas" e sim os protagonistas da nossa vida. Todavia, pergunto-me cada vez mais, se assim é. Podemos lutar, enfrentar, trabalhar. Podemos ser corajosos, honestos, idóneos. Podemos ser tudo que as "filosofias" nos dizem que devemos ser e ainda assim não conseguir a tão almejada felicidade. Podemos alcançá-la, sentir que estamos realizados e de bem com a vida e basta um carro extraviado, uma doença, uma queda, um acidente para deitar por terra tudo que construímos.

Andaremos nós às voltas e voltas para chegar a um mesmo destino? Podemos nós controlar realmente a nossa vida?

Podemos dar o nosso melhor. Viver um dia de cada vez, sonhar e planear com a certeza porém que teremos que mudar sonhos e objetivos pelo caminho. Podemos amar e sorrir, trabalhar e fazer o que nos dá prazer. Podemos ter as nossas pessoas, atividades e as nossas paixões. Podemos ter a nossa bondade e a nossa paz. Controlar o que é controlável, lutar pelo que queremos, enfrentar os nossos medos e a vida de frente e, no fundo, rezar para que o aleatório, o caos, o imprevisível não destrua o nosso castelo de ilusões.  Podemos ter esperança, podemos ter fé, podemos querer. O resto... bem, o resto é o resto e só o amanhã o dirá...

26.02.21

Um amor que nunca foi

V.

Abriam uma garrafa de vinho, era o interregno deles nas maratonas de amor. Ele contava as suas histórias, alegre como um miúdo enquanto recordava memórias do passado, ela sorria, mais embriagada pelas palavras dele do que pelo vinho. Naqueles momentos sentiam-se jovens, leves, longe de todos os problemas e obrigações. Só existiam eles, aquele momento, nada os podia afetar. Davam gargalhadas, brincavam, partilhavam... mais íntimos naquele momento do que quando faziam amor, porque era aqui que as suas almas se abriam uma para a outra e não apenas o seu corpo.

Era destes momentos que ela sentia mais falta. Aquela sensação de felicidade plena, de que a vida finalmente fazia sentido e estava tudo bem com o mundo. Ver a alegria nos olhos dele, a forma como a olhava, ouvir a sua voz, sentir o seu calor e o seu carinho. Sim... sentia falta de tudo nele, mas era nestes momentos que eram mais felizes... (continua)

03.02.21

Estás sempre comigo

V.

Mesmo à distância te encontro, nos meus sonhos, nos meus pensamentos. Há brisas de vento que me beijam com os teus lábios, arrepios que são carícias tuas, raios de sol que são abraços teus. Nunca estou sem ti, nunca estás longe, porque moras no meu coração.

Fazes parte de mim, és intrinsecamente meu, como eu sou incondicionalmente tua. Somos seres individuais sim, vivemos vidas separadas sim, mas estás sempre presente, falas comigo, vejo o teu rosto, beijo os teus lábios. Não, a distância não nos separa, as diferenças não nos condenam, a sociedade não nos aparta. É algo superior, escrito nas estrelas do destino, inevitável e basilar. 

Com todo o grande amor, existe uma dose de dor, não há tamanha felicidade sem a tristeza a ela associada, como em tudo na vida, os contrários tocam-se e caminham de mãos dadas. É necessário encontrar o equilíbrio e a paz. A vida não é sempre como queremos e as contrariedades estarão sempre presentes. Este sentimento é demasiado bom para se perder por não se encaixar num qualquer papel ou rótulo do aceitável, expectável ou desejável. 

És luz na minha vida, norte e sentido, és alegria e felicidade como nunca conheci e não mais quero viver na escuridão. Não importa a distância, as condicionantes ou, até mesmo a dor de não estar contigo... até porque, estás sempre comigo.

02.02.21

Amar e perder...

V.

Esta semana perguntaram-me se era melhor sofrer por se perder alguém ou nunca ter tido a pessoa? Porque se nunca tivermos a pessoa, não temos que passar pelo sofrimento de a perder. Compreendo esse raciocínio, mas discordo. Se nos causa dor quando perdemos, é porque nos trouxe grande alegria quando esteve connosco. Se tivesse sido indiferente, a sua perda não causaria qualquer sentimento. Todas as pessoas que passam pela nossa vida acrescentam algo, quanto mais não seja boas recordações. Regra geral, trazem até muito mais do que isso, trazem lições, sobre nós próprios ou sobre o outro, conhecimento, maturidade, compreensão.

Por muito que não gostemos de admitir, com o sofrimento vem crescimento. Podemos optar por aprender com a dor e crescer, ou continuar um loop infinito de vitimização e não retirar nada da experiência ou acontecimento. É o desconforto causado pelo sofrimento que nos obriga a sair da nossa zona de conforto, a olhar para dentro, fazer uma retrospetiva do que aconteceu e aprender com isso.

Perdemos às vezes pessoas por estupidez, insegurança, imaturidade e nesses casos, crescemos com a aprendizagem e não faremos o mesmo da próxima vez. Outras vezes perdemos a pessoa porque ela simplesmente já não está interessada, a pessoa já desempenhou o papel que tinha a desempenhar na nossa vida. A lição a retirar é que não foi por não sermos suficientes, não nos deixar levar pela ideia de que foi inteiramente culpa nossa e aprendermos que temos que nos amar, mesmo que aquela pessoa já não ame. Seja qual for o motivo, é melhor viver um grande amor e perder, do que nunca amar para não sofrer.

Dirão os mais incautos que é fácil falar, que há pessoas que nunca recuperam completamente, que não é assim tão simples. Concordo, não é um processo fácil, não é, de todo, simples, a recuperação é dolorosa e lenta e há amores que nunca se esquecem, o que, em geral, significa que valeram a pena. Tomara a mim que ninguém sofresse e que fossemos todos felizes para sempre. Mas na vida, a felicidade e a dor caminham de mãos dadas, uma não existe sem a outra, são extremidades que se tocam mais vezes do que gostaríamos. Com o tempo e a experiência, aprendemos a equilibrar, a gerir e a viver com mais tranquilidade, aprendemos a aceitar a dor como a velha companheira que nunca nos deixa verdadeiramente e a compreender que, a maior parte das vezes, é nossa opção sermos assoberbados por ela ou aprender com ela.

O meu único conselho é... amem, não deixem de amar por medo de sofrer. Vale a pena amar, vale tanto a pena, seria uma perda deixar de conhecer esse sentimento maravilhoso apenas por medo.

29.12.20

Rascunhos da vida

V.

De repente e sem saber muito bem como, ela encontrava-se numa situação em que não sabia o que fazer. Não é que, não saber o que fazer, fosse uma situação incomum para ela. Não, pelo contrário. Apesar do seu aparente bravado e confiança, era uma mulher muito insegura. Estupidamente insegura para alguém como seu porte e experiência de vida. Tudo muito bem dissimulado por trás daquela máscara perfeita de mulher inatingível e confiante.

Não, não saber o que fazer, era até bastante comum, terreno conhecido seu e já muito batido. Mas, quando em dúvida, a sua solução era fazer o que todos esperavam de si, seguir o caminho do apaziguamento, corresponder às expectativas e agradar a todos.

Todavia, deparava-se agora com uma situação em que, pela primeira vez em muito tempo, não estava disposta a abdicar do que queria, não estava disposta a desistir. Estava disposta até a "bater o pé"... não como uma criança birrenta e amuada, mas como uma mulher que descobriu algo que a faz sentir feliz e completa e não está disposta a perdê-lo, por muito que magoe os outros.

Arregalou os olhos estupefacta com a sua própria determinação. "Tem que ser algo realmente forte e sério para estar disposta a lutar por isso! Não vou seguir a via do convencionalismo e suprimir os meus desejos e vontades pelo bem comum?". Sim, tinha que ser algo novo, forte, inquebrável. Este sentimento que lhe crescia no peito, esta luz que a inundava, a trazia de volta à vida e dava sentido a tudo... Este amor que lhe batia no peito ao ritmo do seu coração e descompassando-o ao mesmo tempo. Quão extraordinária era esta novidade, quão empolgante se tornava a vida, quão doce passara a ser a sua existência em si mesma.

E não é que, afinal, ela sabia perfeitamente o que fazer! Não é que, de repente, não havia qualquer dúvida!... Lutar, não desistir, amar e vencer. Sim, era precisamente isso, era afinal só isso que podia fazer, o único caminho que concebia. Até podia não vencer no fim, mas ia tentar, ia para frente com tudo e, quanto mais não fosse, pelo caminho iria lutar, não desistir e amar... e só isso, era por si só, uma vitória.

24.12.20

Para ti neste Natal...

V.

Queria ser o sol,

para a tua vida iluminar.

Queria ser o vento,

para te sussurrar ao ouvido

mil segredos de todo o mundo.

Queria ser as estrelas,

cujo brilho esmorece à tua beira.

Queria ser a água,

para os teus lábios refrescar.

Queria ser o fogo,

que o teu corpo aquece.

Queria te oferecer 

toda a riqueza do mundo

e toda a beleza do Universo.

Queria ser tudo o que te agrada

queria, no fundo, ser a tua amada...

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