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Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

24.02.21

Lágrimas de mulher

V.

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É comum dizer-se que "Deus conta as lágrimas das mulheres". Não pode ser verdade... se assim fosse, não teria tempo para mais nada. Na sua maioria, as mulheres choram em silêncio, quando a casa dorme ou sem ninguém ver. Libertam as suas mágoas, as injustiças que sofrem, as suas tristezas através das lágrimas salgadas que sulcam mudas o seu rosto. Choram em vergonha, tentando que ninguém veja a sua vulnerabilidade, não querem explicar o porquê, nem o que sentem porque, no fundo, acham que ninguém iria compreender. Choram sorrindo, enquanto brincam com os filhos ou agem como se tudo estivesse bem e o seu coração não pesasse tanto como a âncora que as prende e esmaga.

O mundo é ainda um lugar tão mais injusto para as mulheres, tão mais perigoso, tão mais difícil. É cansativo lutar todos os dias, trabalhar tanto, corresponder aos arquétipos de perfeição que esperam de nós. Ser a super mulher, super mãe, super filha, super tudo, todos os dias. Querer ter uma carreira, uma família, tratar de uma casa, ser elegante, inteligente, andar arranjada, ser calma, ponderada, levantar às 6:30 e deitar à meia noite, mas não ter olheiras, ler e ser culta, ver programas interessantes, mas ter a casa sempre organizada, ser uma cuidadora, mas de lábios pintados, ter personalidade e ser interessante, mas sem ter mau feitio.... 

Se somos sensíveis e choramos, somos rotuladas de emocionais, "ela passa a vida a chorar", se somos mais racionais e engolimos os sentimentos, "ela é muito fria", se somos alegres e impulsivas, somos levianas, "ela é uma tola", se somos sérias e severas, "ela é rígida", se somos tímidas e introvertidas, "ela é um bicho do buraco"... somos, passo a expressão, "presas por ter cão e por não ter". Já não falo das milhares de mulheres que não têm direitos, vítimas de abusos e maltrato, as que sofrem também em silêncio, mas sem esperança de "salvação".

Perdoem-me os homens que também terão as suas batalhas e tristezas, mas falo enquanto mulher, das dores do meu sexo. Falo das lágrimas anónimas que, muitas vezes, nem entre nós partilhamos, das dores e tristezas que arrumamos na "gaveta" porque não há tempo para isso agora, não adianta me lamentar, ninguém quer saber e não, esta é a vida que escolhi ou qualquer uma das muitas justificações ou desculpas que damos a nós próprias. Falo da falta que faz poder chorar livremente e sem julgamento, lavando a alma e aliviando as mágoas, falo da liberdade de sermos nós próprias, emocionais ou não, de ter quem nos aceite com lágrimas e cicatrizes incluídas, de não ter medo de assustar alguém com a riqueza de sentimentos e emoções que nos preenchem, falo do que sei e conheço, como tantas e tantas mulheres que seriam, no fundo, todas elas.

Não, Deus não pode contar as lágrimas das mulheres porque, infelizmente, elas enchem oceanos.

 

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