Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

Feiticeira das Palavras

Preparação do feitiço: Pega-se num sujeito interessante, junta-se uma pitada de verbos, mexe-se bem o predicado, acrescenta-se uns adjectivos e, abracadabra, temos a magia das palavras, a alquimia dos textos.

30.11.20

Tu e eu

V.

Olha para mim

Ri-te

Chora

Grita

O que quiseres

Mas não te quedes muda

Não me olhes com esse desprezo

Com essa raiva

Algures em mim tu ainda existes

Não me abandones

Não me vires as costas

Porque permaneces emudecida?

Revolta-te que seja

Mas não te extingas

Preciso de ti para lutar

Eu vou conseguir

Te prometo

E sabes como as promessas são importantes para nós

Não... não me olhes assim

Vou conseguir, te prometo

Voltarás a viver

Não te deixo ir

Eu voltarei a ser tu

E tu voltarás a ser eu

Porque afinal... somos a mesma.

27.11.20

A teia

V.

Todo o dia a aranha trabalha

Constrói a sua teia

Fio a fio

De fio a pavio

Ela batalha e se asseia

Labor do seu corpo

Por sobrevivência ou amor

A teia faz parte dela

Não importa o impulsor

Ela faz parte da teia

A teia é o seu tudo, é o seu mundo

Tão delicada, bonita e mortal

Todavia, num só segundo

Num impulso brutal

É fácil e descuidadamente destruída

Toda a beleza mantida

Termina em devastação

Nas mãos incautas de um fanfarrão

Que com a vassoura tem precisão

24.11.20

Medo

V.

Regi a minha vida pelo medo, companheiro fiel que nunca me deixou, única constante que conheço, algoz de sentimentos e ações. Este medo com que vivo, a que me agarro e que tanto detesto. Não me recordo de um dia sem ele, sem sentir o seu aperto no meu pescoço, que me sufoca lenta e docemente.

Gostaria de ser corajosa, destemida, encarar a vida de frente e ser eu mesma. Sem medo de ofender, do ridículo, de magoar os outros, das consequências da minha vontade, da minha alma. Ser livre de julgamentos, tradições que tão bem desempenho, normas sociais com as quais sou tão complacente, ser livre resumidamente.

As palavras anónimas e secretas são catarse de uma alma dorida, quebrada e vencida tão precocemente. A dor sai no papel para dissipar um pouco este véu que me cobre, me tapa, me esconde. Véu, máscara, carrasco, tem vários nomes este sentimento. A pouco e pouco, eu desapareço... um bocadinho de mim morre todos os dias, para ficar apenas aquela que todos querem. Serviçal de vontades alheias, protótipo exemplar do que é esperado de um senhora, norma vigente e aceitável na sociedade.

Medo de falar, de agir, de viver, chorar, rir, perder, ofender. Medo de ser, amar, me magoar.... medo, só medo que toma conta de mim, me paralisa, torna a minha alma exânime. O perfume da vida é substituído por este cheiro nauseabundo do medo, a cor esbatida pelo véu, o sabor insípido do que foi feito só por metade. Ficam palavras por dizer, beijos por dar, aventuras por viver, toques que se perdem, amor que foge, gargalhadas caladas no peito, olhares que se tornam tristes. No fim de tudo, quando eu desaparecer, quando o último sonho cair por terra, quando a esperança se tornar em mera recordação... o que sobrará senão o medo?

23.11.20

O tempo não cura tudo...

V.

As luzes da manhã repousam em mim e, apesar do frio da solidão, sinto a tua carícia na minha pele. És como um dissipar de nuvens, uma brisa suave e o cheiro a alfazema fresca. Inundas os meus sentidos e expulsas a tristeza com a tua luz.

Sabes a café, bolo de chocolate e cascata fresca... assim, tudo junto, sem sentido, mas tão bom. Encaro a manhã fria e tranquila, com uma chávena de chá fumegante e a tua presença. Dás-me, sem saber, coragem e mimo. És vontade de viver, liberdade, és o sol da manhã que me faz abrir os olhos ensonados e sorrir à vida. Sinto o teu beijo no meu pescoço e o teu sussurro no meu ouvido.

O tempo não cura tudo, estão enganados. Com o tempo aprendes a aceitar o que não controlas, a conviver com a dor, a seguir sem queixume. Com o tempo vem a sabedoria, a resignação e até uma certa paz. As feridas cicatrizam e as mágoas conformam-se. Mas o tempo não cura o amor, não quando é a sério. Não o diminui, não o desvanece. Sim, estão enganados... o tempo não cura tudo.

19.11.20

Conto de Fadas

V.

Sabes, meu amor, a culpa é dos contos de fadas que nos contam em pequeninas, dos filmes românticos que crescemos a ver, dos romances que cedo nos habituamos a ler. Crescemos a acreditar que toda gente vai encontrar aquele grande amor, que vão ficar juntos e ser felizes para sempre.

Nunca ninguém nos explica, enquanto sonhamos acordadas com o nosso príncipe, que a princesa tem que se salvar a si própria, que os dragões são mais que muitos e as bruxas más vêm disfarçadas das mais variadíssimas formas.

Conforme vamos crescendo, aprendemos que não é assim tão fácil, vamos beijando uns sapos, lutámos com uns quantos dragões, que na sua maioria estão dentro de nós; vamos deixando cair por terra alguns sonhos, algumas fantasias, o que torna a vida mais fácil, mas também menos rica, menos colorida.

Eu tive sorte, a vida não me tornou amarga, ainda. Cedo percebi que algo em mim era difícil de amar, que talvez o melhor destino fosse ficar na torre sozinha. Mas tu apareceste e viraste o meu coração de menina do avesso. Afinal, eu sabia amar, com sorte poderia ser amada também e era a recompensa por nunca ter deixado o meu coração secar, por ter mantido a minha bondade e a minha esperança. Todo este sentimento que, de tão grande, não me cabia no peito, fazia a vida ter mais sabor, tudo fazia agora sentido e criei espaço em mim para ti.

Todavia, a vida não é um conto de fadas, pois não, meu amor? O príncipe e a princesa nem sempre podem ficar juntos, os dragões são mais que muitos e a vida é muitas vezes madrasta.

Por isso a princesa queda-se na sua torre, a sonhar com o seu príncipe, porque afinal, mais nenhum lhe serve senão aquele que a ensinou a amar. Ela continua a salvar-se, a lutar contra os seus dragões e as bruxas más, na esperança de rever o seu amor, fugir da torre, viver o seu sonho, nem que seja só mais uma vez... já que o "Felizes para sempre" só mesmo nos contos de fada.

18.11.20

Poema

V.

Como escrever poemas se não sobram sonhos? Se no peito secou a esperança de ti? A solidão é uma casa fria quando não é desejada.

Sobro eu, só eu, protagonista e personagem única deste poema que tanto quis escrever. Eras a minha anáfora, a minha antítese, a minha aliteração e a minha elipse. Eras todas as palavras e inspiração que eu precisava. No teu beijo criava as minhas rimas, no teu olhar via as minhas musas e o teu corpo era o meu pleonasmo de perfeição. Todos os enredos, histórias e tramas eram connosco e até mesmo as lágrimas eram eufemismos ou sinal líquido de um amor hiperbolizado. 

Agora sobro eu, só eu... e já nem as palavras do nosso poema me fazem companhia.

17.11.20

Esperança

V.

A manhã está fria e bonita. Sempre adorei a luz da manhã, sempre me deu Esperança. Respiro fundo, sinto com gratidão o ar frio entrar nos pulmões. Ar este que falta a tantos de variadíssimas formas nos dias que correm.

Uns estão doentes, respirando de forma assistida por máquinas; outros sem emprego ou rendimento e até lhes falta o ar; alguns têm medo, consumidos pela incerteza e pavor, custa-lhes respirar.

Fiz uma prece, uma de muitas nos últimos tempos, e pedi aos pássaros que levassem as minhas palavras ao céu. Que no bico levassem a minha prece e na asa transportassem a Esperança. Que a espalhassem pelo caminho, para tocar algumas almas. Pedi ao vento que levasse este ar bom e fresco aos que sofrem, aos que lutam, aos que pensam desistir. E pedi ao sol que levasse esta linda luz da manhã para ti. Para iluminar o teu dia, o teu coração, a tua vida e ajudar-te a combater essa escuridão com que lutas.

Eu sei... eu sei que dias há em que a escuridão vence. Tudo é negro, tudo é triste e a Esperança não é mais do que uma palavra no dicionário, uma quimera de outrora. Mas hoje, talvez a luz chegue até ti, trazida pelo sol ou na asa de um pássaro. Quando a brisa te tocar, recorda-te que leva o meu pedido. Enche os pulmões, respira fundo, fecha os olhos e sorri... porque hoje estás aqui, consegues respirar, estás vivo, não te falta o ar e há Esperança.

16.11.20

Corre

V.

Corre

Tu, a estrada, o som dos teus passos

Observa os pássaros, as árvores, os muros

Deixa as preocupações nas pedras da calçada

Sem vaidades

Sem julgamentos

Só correr

Os pensamentos teimam em surgir

Corre mais

Respira

Mais rápido

Sê mais forte

Afoga a dor no ar que queima os pulmões

Corre mais

Respira

Mais rápido

Sê mais forte

Foges da vida, correndo para viver

O coração bate descompassado

Mas desta feita, pelos motivos certos

Estás viva

Corre

És capaz

Só mais um pouco

Sem desistir

Afinal, estás a correr para viver

Ou estarás a correr para fugir?

13.11.20

Uma senhora

V.

Enquanto a casa dorme, o seu coração grita. Quantas mulheres aprenderam a chorar sorrindo?

Descrevem-na como sendo uma senhora, sempre composta, alinhada, bem parecida... uma dama. Mas o seu coração é rebelde, sua alma livre. Gosta de gargalhadas, abraços que desaprendeu a dar, conversas profundas pela noite dentro, o cheiro a café, beijos intensos, lareiras, beber vinho depois de fazer amor, caminhadas na floresta, respirar a praia, ler histórias em voz alta, escrever farrapos de texto...

Não tem grandes ambições e desistiu dos seus sonhos em prol de ser uma senhora. Nem sabe bem porquê? A vida aconteceu-lhe e ela deixou a vida acontecer. Agora, enquanto a casa dorme, o seu coração grita e ela chora sorrindo... como uma senhora.

12.11.20

Mulheres em mim...

V.

Cheira a frio

Não há lua, a noite está límpida

Dói

Fecho os olhos para afugentar a dor

E vejo-a

Rosto chupado, lábios finos

Olhos pequenos de pálpebras caídas

Rugas vincadas por cada sorriso, por cada lágrima

Uma mão que tenta escrever a custo

Tolhida por uma artrite agonizante

A mulher de amanhã

Abano a cabeça, numa negação de pensamentos

E surge a outra

A jovem imberbe

Queixo levantado

Forte, orgulhosa

Ouço os aplausos

As vozes que gritam "tu consegues"

"Só mais um salto", "Força"

"Respira", "Tu consegues"

É a mulher de ontem

Estas duas mulheres não se conhecem

Nunca se cruzaram

Agora apresentadas por mim

Mediadas pela mulher de hoje

O ontem já lá vai

E hoje

Bem, hoje cheira a frio

Não há lua, a noite está límpida

E hoje... o amanhã ainda não chegou

Pág. 1/2

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Em destaque no SAPO Blogs
pub